Como é que os pensos cicatrizantes de silicone atuam sobre as cicatrizes?
As fitas ou pensos de silicone são produtos médicos usados há décadas na prevenção e tratamento de cicatrizes hipertróficas e quelóides. Os mecanismos de ação principais envolvem:
a) a hidratação, já que o silicone forma uma barreira semioclusiva que reduz a perda de água transepidérmica, mantendo a pele hidratada, modulando a produção de colagénio e melhorando a elasticidade da cicatriz;
b) a pressão constante sobre a cicatriz, que ajuda a normalizar o fluxo sanguíneo excessivo para a área, a inibir a formação de novos vasos sanguíneos (neovascularização) e a reduzir a produção de colagénio, resultando numa cicatriz mais plana e suave;
c) a regulação da temperatura e da oxigenação local, criando um microambiente mais estável, favorecedor da remodelação do tecido cicatricial;
d) a redução da inflamação, já que silicone reduz a atividade de mediadores inflamatórios locais;
e) a redução e distribuição das tensões mecânicas que a cicatriz pode sofrer, especialmente em áreas de movimento, embora esta ação seja questionada devido à flexibilidade das fitas.
Portanto, elas não “curam” cicatrizes, mas melhoram a aparência e textura, especialmente em cicatrizes recentes e elevadas, resultando numa cicatriz menos espessa, com cor mais próxima da pele envolvente, mais flexível e com menos comichão e sensação de repuxamento associadas.
Vemos pessoas nas redes sociais a usarem fitas cicatrizantes de silicone para substituir o Botox®. Funciona?
Nas redes sociais, há quem use as fitas de silicone (ou mesmo kinesio tape e fitas adesivas comuns) coladas estrategicamente na testa ou em volta dos olhos, com o objetivo de impedir o movimento facial, reduzir as linhas de expressão e minimizar a aparência das rugas, e assim tentar “substituir o Botox”.
Na prática, este método não funciona como a toxina botulínica (Botox®), a qual atua bloqueando a libertação de acetilcolina nas junções neuromusculares, com consequente paralisia temporária dos músculos, relaxamento da pele e suavização das rugas de expressão. As fitas de silicone, por outro lado, apenas proporcionam um efeito temporário de tração e impedem mecanicamente o movimento da pele enquanto estão aplicadas, não afetando a estrutura da pele nem atuando sobre o músculo ou sobre os neurotransmissores.
Assim, embora as fitas possam levar a uma diminuição temporária da formação de rugas de expressão (efeito físico), não possuem um efeito biológico duradouro ou sustentado e, assim que se retiram, a contração muscular volta ao normal. Não existem estudos que comprovem a eficácia das fitas de silicone como método preventivo contra o envelhecimento ou como substitutas da aplicação de toxina botulínica.
O que contém estas fitas para que possam ser usadas neste contexto?
As fitas são compostas essencialmente de gel de silicone de grau médico (ex.: polidimetilsiloxano), e uma camada posterior, geralmente de um material flexível, respirável e impermeável a líquidos, como poliuretano ou viscose. Possuem uma tecnologia de contacto adesiva (como a tecnologia Safetac) que adere suavemente à pele, permitindo a remoção com o mínimo de trauma e dor, e tornando o penso reutilizável. Não contêm ativos como vitaminas, ácidos ou peptídeos — o seu efeito é puramente físico e oclusivo, não químico.
Qual pode ser a desvantagem de aplicar estes pensos várias vezes por semana?
O uso de pensos cicatrizantes em áreas sem cicatriz e com pele saudável pode ter alguns efeitos indesejáveis, se utilizadas repetidamente, incluindo:
a) oclusão excessiva, que pode alterar a microbiota cutânea e favorecer o aparecimento de comedões, borbulhas, irritação e eczema, sobretudo em peles sensíveis;
b) dano da barreira cutânea, sobretudo após remoção incorreta da fita;
c) falsa sensação de segurança, podendo atrasar tratamentos comprovadamente eficazes, como o uso de protetor solar, cosméticos anti-idade e procedimentos estéticos, ou a avaliação dermatológica.
Pode ser usada para atenuar cicatrizes de acne?
As fitas cicatrizantes de silicone não são um tratamento de primeira linha para as cicatrizes de acne. No entanto, podem ser úteis nas cicatrizes hipertróficas e quelóides, melhorando significativamente a sua altura, cor e textura. Para cicatrizes atróficas (depressões típicas da acne), as bandas de silicone podem ter um benefício teórico ao estimularem a produção de novo colágeno de uma maneira mais organizada, preenchendo gradualmente as áreas deprimidas. Podem, por isso, reduzir a visibilidade das cicatrizes, minimizando a vermelhidão e a inflamação associadas a elas. Na prática, não é um método recomendado nem utilizado de forma sistemática, pelo seu benefício limitado nestas cicatrizes de difícil abordagem, as quais requerem outros tratamentos, como peelings, lasers, microagulhamento, microdermabrasão, subcisão, etc.
Se alguém chegasse ao seu consultório a dizer que tinha o hábito de usar estas fitas cicatrizantes, qual seria a sua reação?
Enquanto dermatologista, e sem julgamento, ouviria o paciente para compreender o seu raciocínio e as suas expectativas, e tentaria esclarecê-lo, calmamente, quanto ao mecanismo de ação das fitas de silicone e aos limites e possíveis efeitos indesejáveis das mesmas. Aproveitaria o momento educativo para explicar quais os hábitos do estilo de vida, a rotina de cuidados com a pele (uso de protetor solar, cosméticos com ativos como antioxidantes, retinóides, péptidos e ácido hialurónico,…) e os procedimentos estéticos que realmente melhoram as rugas e outros sinais de envelhecimento cutâneo. Estabeleceria o protocolo de tratamento mais adequado para as queixas e preocupações do paciente, baseado em opções seguras, eficazes e com comprovação científica.