A acne da idade adulta (ou acne tardia) é uma entidade comum? A sua incidência está a aumentar?
Ainda não é claro se há um aumento real da incidência de acne nesta faixa etária ou se o acesso à informação sobre a doença e/ou tratamento faz com que este grupo procure atendimento médico especializado.
Aparentemente, doentes que sofreram de acne grave ou com necessidade de tratamento mais agressivo na adolescência, quando reiniciam acne na vida adulta tendem a procurar mais rapidamente ajuda médica. Doentes que nunca tiveram ou tiveram acne ligeira, muitas vezes tendem a protelar a avaliação médica especializada, esperando que a doença passe com medidas mais básicas, dermocosméticos e recomendações de não dermatologistas.
Os dados de prevalência mostram que cerca de 20% das mulheres apresentam acne na vida adulta, havendo um estudo francês que demonstra que a acne persiste em aproximadamente 40% das mulheres adultas. A sua incidência e prevalência são maiores no sexo feminino. De facto, cerca de 80% dos doentes com acne tardia são mulheres. Curiosamente, apenas 1/5 dos doentes com acne tardia procura ajuda médica.
O que é, em termos práticos, a acne tardia e como se manifesta clinicamente?
A acne tardia define-se como acne que continua (acne persistente) ou surge (acne de início tardio) após os 25 anos. A maioria das doentes apresenta a doença desde a adolescência (60-80%), embora em muitos casos a distribuição e intensidade das lesões se alterem o tempo.
A clínica da acne tardia é relativamente específica e diferente da acne juvenil. As lesões são mais inflamatórias, afetando maioritariamente o terço inferior da face e a zona U: região mandibular, queixo e pescoço. Em doentes com > 40 anos e fumadoras são comuns os macrocomedões (microquistos) nas regiões frontal e lateral da face. O atingimento do tronco mais comum em homens.
Na acne tardia é mais frequente o eritema pós-inflamatório, metade das doentes apresenta hiper ou hipopigmentação e cicatrizes, e mais de três quartos das doentes apresenta agravamento pré-menstrual das lesões.
Na acne de início tardio é mais relevante a requisição de exames complementares de diagnóstico para despistar patologia endocrinológica.
Quais as causas da acne do adulto? São as mesmas da acne juvenil?
A etiologia da acne tardia é controversa. Tal como na acne juvenil há 4 fatores fulcrais da patogénese da doença: a hiperqueratose folicular, o aumento da secreção sebácea, a presença e atividade do Cutibacterium acnes e a inflamação.
Há depois vários fatores que podem desencadear ou agravar a acne:
- Hereditariedade (genética): pode existir história familiar de acne tardia em metade dos doentes.
- Fatores hormonais ou anomalias endócrinas: início ou paragem da pílula contracetiva, implante anticoncecional, dispositivo intrauterino e medicamentos utilizados nos tratamentos de infertilidade, gravidez, síndrome do ovário poliquístico (SOP), resistência à insulina.
- Período menstrual: o diâmetro da abertura do folículo pilossebáceo diminui 2 dias antes do início do período menstrual, o que leva a redução do fluxo do sebo para a superfície e consequente agravamento pré-menstrual da acne.
- Dieta: componentes das dietas ocidentais, especialmente produtos lácteos e com elevado índice glicémico (alimentos ricos em cereais refinados e açúcar).
- Stress: perceção de agravamento da acne em ~50% das mulheres, eventualmente pela maior produção de mediadores inflamatórios, como neuropeptídeos.
- Tabaco: o hábito de fumar pode associar-se a persistência da acne do adulto; mulheres fumadoras apresentam maior prevalência da doença, resistência ao tratamento e maior quantidade de comedões.
- Outros fatores: fármacos, cosméticos oclusivos/comedogénicos e manipulação ou traumatismo das lesões.
A acne tardia tem impacto na qualidade de vida dos doentes, ou que é um problema minor?
A acne tardia tem um forte impacto psicossocial e financeiro. Associa-se, frequentemente, a depressão e ansiedade, frustração, baixa autoestima e isolamento social. Este impacto é maior no sexo feminino e nem sempre se relaciona com a gravidade da doença. Ou seja, uma doente pode ser uma acne ligeira mas esta ter um enorme impacto na qualidade de vida.
Não é raro termos doentes que nos referem: “Parece que voltei à adolescência”, “Devia estar a preocupar-me com as rugas e não com as espinhas”, “Tenho mais acne do que a minha filha adolescente”, “Não tive acne quando era nova e tenho agora aos 40”…
Como é feita a abordagem terapêutica destes casos?
Na acne tardia, a chave não é apenas o tratamento certo, mas a persistência e consistência na abordagem. A acne na idade adulta costuma ser “mais teimosa”, emocionalmente desgastante e lenta em termos de resposta, por isso exige uma postura paciente e disciplinada — tanto do paciente como do profissional de saúde.
A abordagem deve ser individualizada e precoce e deve incluir um tratamento da fase aguda e tratamento de manutenção.
Dispomos de terapêutica tópica (como retinóides, peróxido de benzoílo, antibióticos, ácido azelaico e dermocosméticos), terapêutica sistémica (antibióticos, isotretinoína ou tratamentos hormonais) e procedimentos ou intervenções, úteis na fase ativa ou na face cicatricial (como drenagem de quistos e comedões, peelings químicos, lasers resurfacing/fracionados, microagulhamento, subcisão e materiais de preenchimento.
Embora os fármacos utilizados sejam similares aos usados na acne juvenil, o tratamento tem algumas particularidades e pode ter de ser relativamente prolongado.
A dificuldade do tratamento da acne tardia pode estar relacionada com:
- Resistência aos tratamentos convencionais,
- Alterações hormonais constantes em mulheres, dificultando o controlo duradouro,
- Pele mais sensível (menos resistente a tratamentos agressivos),
- Possível associação com outras patologias (ex.: SOP).
MEDIDAS GERAIS:
- Limpeza e hidratação são fundamentais na rotina de cuidados diários.
- Lavagem 2x/dia com produto não irritante, não oclusivo, que ajude a regular a produção de sebo.
- Utilização de cosméticos específicos para pele acneica (hidratantes, maquilhagem, protetores solares,…) com a designação oil-free, à base de água ou não-comedogénicos.
- Usar produtos fluídos e matificantes, para regular a oleosidade e o brilho da pele.
- Fazer uma esfoliação facial ligeira 1-2x/semana.
- Não abandonar o tratamento se a pele piorar nas primeiras semanas (pode ocorrer com alguns tratamentos).
- Evitar manipular as lesões, o que piora a inflamação e pode gerar cicatrizes.
- Evitar testar novos produtos por conta própria, principalmente os “da moda” ou “caseiros”.
- Adotar uma alimentação saudável.
- Evitar ambientes poluídos e o tabagismo.
- Controlar o stress (exercícios, meditação) e sono adequado.
Porque é fundamental a persistência, paciência e disciplina?
A acne do adulto tende a ter um curso crónico e recaídas frequentes. Isso significa que após alcançamos a melhoria, o tratamento de manutenção será tão importante como o tratamento inicial.
O que pode acontecer sem persistência:
- Trocas frequentes de produtos = pele irritada e ausência de resultados.
- Desânimo rápido = abandono precoce de tratamentos que poderiam funcionar com o tempo.
- Busca por soluções milagrosas = uso de métodos não comprovados, que podem agravar o quadro.
Como alguns tratamentos para a acne podem levar várias semanas até se começarem a observar efeitos significativos, é essencial rigor na rotina diária e compromisso com o tratamento a médio/longo prazo para se alcançar o sucesso.
Quando procurar um dermatologista?
Deve considerar procurar um dermatologista quando:
- A acne afeta a qualidade de vida, causando baixa autoestima e impacto psicoemocional;
- Não há melhorias com o tratamento atual, após 3 meses de uso consistente, ou ocorreu agravamento significativa das lesões;
- Há sinais de desequilíbrio hormonal, como menstruação irregular, queda de cabelo ou aumento de pelos em locais típicos do padrão masculino (hirsutismo);
- Estão a surgir cicatrizes e hiperpigmentação pós-inflamatória;
- Deseja iniciar tratamentos ou procedimentos que necessitam de acompanhamento especializado.