O que é a acne?
A acne é uma doença inflamatória crónica da unidade pilossebácea (estrutura que engloba o folículo piloso, a glândula sebácea e o músculo eretor do pelo), sendo uma das patologias de pele mais frequentes. Apesar de não ser uma patologia grave, apresenta um impacto significativo a nível psicoemocional, social e nas relações interpessoais.
É uma doença comum? Quem pode sofrer de acne?
A acne acomete ambos os sexos, mas geralmente os homens são afetados pelas formas mais graves. Cerca de 85% dos indivíduos entre os 12 e os 24 anos são afetados por esta doença. No entanto, também pode ocorrer acne noutras idades, como no período neonatal e na idade adulta. De facto, mais de 40% das mulheres são afetadas pela acne depois dos 25 anos. Num estudo realizado em Portugal, constatou-se que cerca de 80% dos indivíduos dos 10 aos 12 anos sofriam de acne, com predomínio do sexo masculino. Curiosamente, apenas 44% dos doentes fazia algum tipo de tratamento.
Porque surge a acne?
A etiologia da acne é complexa e multifatorial (devida a vários fatores) e inclui a predisposição genética, fatores raciais, fisiológicos e hormonais (efeito das hormonas masculinas, os androgénios; alterações hormonais relacionadas com o ciclo menstrual, com o uso de anticoncetivos orais ou as que ocorrem durante a gravidez) e a utilização de determinados medicamentos (ex.: corticóides, androgénios, lítio, iodo, brómio, isoniazida, anticonvulsivantes, vitamina B12, etc.).
A limpeza excessiva da pele com agentes irritantes, o stress, o uso de cosméticos gordurosos e a fricção da pele (ex.: telemóveis e capacetes) podem agravar a acne. Embora não exista nenhuma ligação científica incontestável entre a alimentação e a acne, alguns dados sugerem que produtos lácteos e hidratos de carbono de alto índice glicémico podem aumentar a prevalência e gravidade da acne.
Um estudo do Instituto Dermatológico San Gallicano, de Roma, demonstrou que as fumadoras estão em risco de desenvolver uma nova patologia, a que deram o nome de “acne dos fumadores”. De facto, num grupo de 1000 mulheres entre os 25 e os 50 anos, 41% das fumadoras tinham acne (contra 10% das não fumadoras). Outro estudo, publicado no British Journal of Dermatology, conclui que fumar na adolescência quadruplica a hipótese de manter acne na idade adulta.
Na origem da acne temos de considerar quatro fatores básicos: 1) aumento da produção e alteração da composição do sebo (disseborreia); 2) inflamação; 3) obstrução do folículo pilossebáceo (hiperqueratinização folicular), 4) colonização pela bactéria comensal Cutibacterium acnes (C. acnes). A evidência científica sugere que na acne não há hiperproliferação de C. acnes, mas disbiose e predominância do filotipo IA1, o qual pode desenvolver um perfil virulento, em vez de proteger a barreira cutânea.
Como se pode manifestar a acne?
Clinicamente, a acne carateriza-se por lesões não inflamatórias (comedões fechados e comedões abertos ou “pontos negros”), lesões inflamatórias (pápulas, pústulas, nódulos e quistos) e cicatrizes, muitas vezes relacionadas com a manipulação impulsiva das lesões. As áreas mais afetadas são a face, pescoço, peito, costas e ombros, locais com maior concentração de folículos pilossebáceos. Geralmente, o diagnóstico de acne não é difícil, sendo o quadro clínico bastante típico, com lesões e sintomas locais característicos e ausência de manifestações sistémicas. Deve, no entanto, ser distinguida de outras doenças cutâneas potencialmente confundidoras, como a rosácea, foliculites, dermatite perioral, erupções acneiformes e tumores cutâneos benignos.
Quais as complicações da acne?
A acne, especialmente as formas mais graves, pode ter um impacto importante na autoestima e no bem-estar psicossocial, podendo levar a constrangimento, isolamento social, estigmatização e, em casos extremos, à depressão e ideação suicida.
A acne frequentemente causa cicatrizes, sobretudo quando existem lesões inflamatórias e manipulação/traumatismo das lesões pelo paciente, as quais podem causar grande impacto na vida das pessoas afetadas. Estas cicatrizes são muito variadas, podendo ser hiperpigmentadas (manchas escuras residuais, também chamadas de “hiperpigmentação pós-inflamatória”, mais comuns em fototipos de pele mais escuros), hipopigmentadas, atróficas (deprimidas), hipertróficas ou mesmo quelóides.
Outras complicações incluem as foliculites por bactérias Gram-negativas (sobretudo em doentes que realizam tratamentos com antibióticos orais durante longos períodos de tempo), a acne fulminante (uma variante grave de acne que pode estar associada a sintomas sistémicos) ou o edema facial sólido (doença de Morbihan).
Como se trata a acne?
Na atualidade, não existe qualquer tratamento curativo para a acne. No entanto, as opções terapêuticas disponíveis podem ser bastante eficazes no controlo da doença e na prevenção da formação de novas lesões e sequelas.
O tratamento deve ser individualizado e, de um modo geral, prolongado, não sendo visíveis resultados antes de 4–8 semanas de tratamento. A escolha depende da gravidade da doença, da forma clínica, do sexo e idade do doente, da tolerância, da resposta a tratamentos prévios e do poder aquisitivo dos doentes.
A terapêutica pode ser:
- Tópica – retinóides (ex.: adapaleno, tretinoína, trifaroteno e tazaroteno), peróxido de benzoílo, antibióticos (ex.: clindamicina e eritromicina), ácido azelaico, dapsona e clascoterona (os dois últimos não disponíveis em Portugal);
- Oral – antibióticos (geralmente tetraciclinas), contracetivos orais, isotretinoína ou espironolactona.
A limpeza e hidratação da pele acneica é fundamental na rotina de cuidados diários. Devem ser utilizados dermocosméticos específicos para pele acneica (hidratantes, maquilhagem, protetores solares, entre outros), com a designação oil free, à base de água ou não-comedogénicos. Uma vez que na maioria dos casos a pele é oleosa, devem ser utilizados produtos fluídos e matificantes, que regulem o excesso de oleosidade e o brilho da pele. Foi demonstrado que o tratamento eficaz da acne aumenta a diversidade de bactérias da pele; cosméticos que modulam o microbioma, restaurando bactérias benéficas e evitando o crescimento de bactérias nocivas, e que melhoram a hidratação da pele e a barreira epidérmica, mostram-se promissores.
Alguns tratamentos tópicos podem ser irritativos para a pele, pelo que pode ser recomendável a sua aplicação numa pequena área, antes de serem aplicados na totalidade da área afetada, ou um início gradual até atingir o uso diário.
Embora a acne não seja resultante de uma infeção bacteriana, os antibióticos são usados no seu tratamento por apresentarem propriedades anti-inflamatórias e controlarem a bactéria C. acnes. No entanto, o seu uso intensivo levou ao aparecimento de estirpes resistentes de C. acnes, tornando o tratamento de acne cada vez mais difícil.
A isotretinoína é um derivado da vitamina A indicado para a acne grave, nodular e inflamatória, nos casos associados a cicatrizes e com impacto psicossocial marcado, ou quando outros tratamentos falharam. Embora sendo um tratamento altamente eficaz, tem o risco de causar efeitos laterais não negligenciáveis, pelo que deve ser prescrito sob vigilância de médico dermatologista ou com experiência no manuseamento do fármaco e dos seus efeitos laterais.
As cicatrizes de acne podem ser tratadas com recurso a lasers (ex.: laser CO2 ou Er:YAG fracionado), microdermoabrasão, microagulhamento, subcisão, peelings químicos ou materiais de preenchimento.
Qual o papel dos dermocosméticos no tratamento da acne?
Os dermocosméticos têm indicação na abordagem da acne:
1) em monoterapia para formas mais ligeiras;
2) na fase de manutenção (após controlo da doença com o tratamento farmacológico);
3) como terapia adjuvante aos tratamentos médicos, de forma a controlar os eventuais efeitos laterais dos mesmos (ex.: secura, irritação cutânea,…), aumentar a adesão e a eficácia, minimizar a probabilidade de hiperpigmentação pós-inflamatória e cicatrizes, fornecer fotoproteção, além de outros efeitos benéficos.
Os dermocosméticos podem ter ingredientes dermatologicamente ativos com ação:
- Queratolítica: ácido salicílico, alfa-hidroxiácidos, lipo-hidroxiácidos, ácido linoleico, retinóides, HEPES;
- Anti-inflamatória: niacinamida, zinco, isoflavonas de soja, bakuchiol, Lactobacillus (fermentado), Salix alba, pantenol, decanediol, água de nascente termal;
- Seborreguladora: niacinamida, zinco, bakuchiol, epigalocatequina-3-galato (EGCG);
- Antimicrobiana: zinco, manose, decanediol, bakuchiol, Lactobacillus plantarum, Vitreoscilla filiformis (Aqua posae filiformis), óleo da árvore do chá;
- Protetora da barreira cutânea: procerad, glicerina, niacinamida, ceramidas, pantenol, HEPES, manose, Vitreoscilla filiformis (Aqua posae filiformis), água de nascente termal.
No entanto, é de lembrar que muitas vezes a acne não irá melhorar significativamente apenas com cosméticos, por mais que o paciente adquira e experimente múltiplos produtos, de marcas distintas e recomendados por amigos/conhecidos, farmacêuticos, consultores em skincare ou nas redes sociais.
Que medidas preventivas devem ser adotadas?
Na prevenção da acne é importante ter em atenção as seguintes medidas:
- Lave as áreas afetadas duas vezes por dia com um produto suave, hipoalergénico e adequado para pele acneica;
- Hidrate a pele com produtos “oil-free”, não comedogénicos e que respeitem as necessidades da pele (matificante/seborregulador se a pele for oleosa, nutritivo e reparador se a pele se encontrar seca ou fragilizada por tratamentos medicalizados);
- Evite substâncias potencialmente irritativas para a pele e que fragilizem a barreira cutânea;
- Nunca esprema as borbulhas, pelo risco de infeção, agravamento da inflamação e formação de cicatrizes;
- Se usar maquilhagem, opte por produtos “oil-free”/não comedogénicos e retire-a ao deitar;
- Adote um estilo de vida saudável, controle o stress/ansiedade e evite o tabagismo e alimentos com elevado índice glicémico;
- Utilize protetor solar adequado à pele acneica e controle o grau de exposição ao sol, para evitar a hiperpigmentação e eritema pós-inflamatórios induzidos pela radiação ultravioleta e o agravamento da acne. Além disso, alguns medicamentos tópicos e orais para a acne podem tornar a pele mais sensível à luz solar e levar a um maior risco de queimaduras solares e danos cutâneos.
Em conclusão…
A acne é uma doença crónica, podendo durar vários anos se não for tratada eficazmente. Embora não tenha cura no sentido estrito da palavra, pode ser prevenida e controlada com as medidas terapêuticas disponíveis.
O mito de que não vale a pena tratá-la pois “é normal e passa com a idade” não corresponde à realidade. De facto, sem tratamento, muitos casos terão uma evolução desfavorável, com risco de cicatrizes permanentes, inestéticas ou mesmo desfigurantes e impacto psicossocial importante, redução da autoestima, dificuldades de socialização significativas e risco acrescido de ansiedade, depressão e pensamentos suicidas. Essa evolução será incomum se a intervenção terapêutica for precoce, corretamente dirigida e orientada por um profissional de saúde com experiência no tratamento da acne.