“Escaldão” e fotoproteção

Dr. Paulo Morais - Médico Especialista de Dermatologia e Venereologia Subespecialista em Medicina Estética e Cosmética
Costas de mulher despida onde se vê marcas de escaldão

O que é uma queimadura solar?
A queimadura solar (escaldão, eritema actínico ou eritema solar) é uma queimadura na pele provocada pela exposição excessiva ou prolongada à radiação ultravioleta (UV) emitida pelo Sol. Efeito similar pode ser produzido pela exposição exagerada à radiação UV dos solários (câmaras de bronzeamento). A sua gravidade é variável, podendo ser de primeiro grau (mais ligeira) ou de segundo grau (com formação de bolhas e dor intensa).

Os sinais e sintomas da queimadura solar surgem poucas horas após a exposição e incluem vermelhidão cutânea (eritema), dor, ardor, edema e bolhas. A pele apresenta-se quente ao toque e pode descamar após alguns dias. Sintomas como febre, arrepios e fraqueza, podem ocorrer em queimaduras extensas. A gravidade do quadro clínico é proporcional à duração e intensidade da exposição.

Pessoas de pele e olhos claros, ruivas ou loiras, com sardas e que trabalham ou praticam desporto ao ar livre têm maior risco de sofrer queimaduras solares. Este risco é acrescido quando o índice UV é elevado, nomeadamente no verão, entre as 11 e as 17h e em latitudes próximas do Equador. Um índice UV alto significa que a pele desprotegida queimará mais rápido ou mais gravemente.

Queimaduras solares: coisa do passado ou nem por isso?
Apesar da população estar cada vez mais informada relativamente aos riscos da exposição solar desprotegida e exagerada, e das iniciativas de promoção de uma relação salutar com o Sol e de incentivo ao uso de protetor solar, as queimaduras solares continuam a ter uma prevalência elevada.

Estimativas norte-americanas mostram que, anualmente, há cerca de 33 mil casos de queimaduras solares com necessidade de avaliação nas urgências hospitalares. Em 2015, cerca de 35% dos americanos sofreram queimaduras solares, valor sobreponível ao de 2000. A prevalência é maior no sexo masculino, em adultos jovens e em indivíduos de fototipo baixo e com pele sensível ao sol.

Pessoas que aplicam auto-bronzeadores (provavelmente pela falsa sensação de segurança do bronzeado adquirido), que efetuam atividades físicas aeróbicas (como correr, caminhar ou andar de bicicleta), com hábitos alcoólicos excessivos e com excesso de peso ou obesidade parecem ter mais propensão para sofrer escaldões (vs. grupos de comparação).

Existe também evidência de que a utilização abusiva de protetor solar por indivíduos sensíveis ao sol pode, erradamente, prolongar a duração da exposição, sem diminuir a ocorrência de queimaduras solares. Na verdade, os filtros solares não são para aumentar o tempo de exposição ao sol, mas sim para aumentar a proteção quando a exposição é inevitável. A proteção que asseguram depende da sua correta aplicação. Por outro lado, o uso de protetor solar como atitude isolada de fotoproteção não faz sentido nem substitui as restantes medidas comportamentais. É extremanente útil, mas funciona quando a fotoproteção é encarada como um todo e inclui: a evicção do sol e a procura de sombras nas horas de maior intensidade solar, o uso de roupas e acessórios protetores, a aplicação diária (e não apenas em período de férias) de protetor solar e a consulta do índice ultravioleta no dia e local onde se encontra o indivíduo.

Quais são as consequências, a curto e longo prazo, das queimaduras solares?
As complicações precoces da queimadura solar são a infeção secundária das lesões, especialmente quando se formam bolhas e há perda da camada mais superficial da pele, a epiderme, e a sensibilidade e extrema vulnerabilidade da pele esfoliada à radiação solar, e que pode durar várias semanas.

No entanto, as queimaduras solares apresentam repercussões biológicas a vários níveis e o perigo que delas advém vai muito além da dor, vermelhidão e desconforto a curto prazo. Seja de que gravidade forem, as agressões solares têm um efeito cumulativo ao longo dos anos, o que significa que ficam como que gravadas na “memória” da pele, na forma de alterações no ADN das células cutâneas. Quanto mais repetidas forem as queimaduras mais danos e mutações se acumulam no material genético das células da pele, o que pode levar, após vários anos ou décadas, ao desenvolvimento de cancro da pele, o tipo de neoplasia maligna mais comum em todo o mundo. Estudos mostram que cinco ou mais queimaduras solares duplicam o risco de melanoma, um cancro da pele potencialmente mortal, mas basta uma queimadura solar grave, com bolhas, na infância ou adolescência para a hipótese de melanoma mais que duplicar mais tarde na vida.

Por outro lado, os escaldões aceleram e acentuam o processo de envelhecimento cutâneo, fazendo com que as rugas e manchas surjam mais cedo e com mais intensidade. O sol é, sem dúvida, o elemento mais importante no processo de envelhecimento extrínseco da pele, sendo um fator potencialmente evitável.

Como evitar uma queimadura solar?
A queimadura solar pode ser evitada com a adoção de um conjunto de medidas comportamentais que incluem, mas não se restringem ao uso do protetor solar. Tais medidas incluem a limitação do tempo de exposição solar e a evicção da exposição entre as 11 e as 17h, a procura de zonas de sombra, por exemplo árvores, toldos e guarda-sol, o uso de acessórios como boné, chapéu de abas largas e óculos de sol e a escolha de roupas de mangas compridas feitas de algodão ou de tecido próprio para a exposição ao sol, principalmente para as crianças. Crianças e idosos precisam de atenção adicional para evitar as queimaduras, pois são mais suscetíveis à formação de bolhas e à insolação.

Devemos atentar na medicação efetuada, uma vez que alguns medicamentos tornam a pele mais sensível ao sol, desencadeando uma reação tipo queimadura mesmo com moderada exposição solar.

O protetor solar, com filtros químicos (orgânicos), físicos (minerais ou inorgânicos) ou associação de ambos, é um aliado essencial na prevenção das queimaduras solares, do cancro cutâneo e do fotoenvelhecimento da pele. Deve ser usado diariamente, independentemente da estação do ano, incluindo durante a realização de atividades lúdicas ou desportivas, na praia, no campo ou na neve.

Mesmo em dias nublados ou de nevoeiro há risco de queimaduras, já que cerca de 80% dos raios UV conseguem penetrar nas nuvens, razão pela qual não devemos descurar as medidas de fotoproteção nestas circunstâncias. Por isso dizemos: “em dias de nevoeiro o sol é matreiro” (queima sem darmos conta).

Quando estamos dentro de água ou fazendo atividades aquáticas não sentimos o calor, mas os efeitos nefastos da radiação solar podem sentir-se, quer pela reflexão dos raios solares quer porque a água permite a passagem dos raios até determinada profundidade.

Finalmente, o uso de protetor solar não deve dar a falsa segurança de total proteção contra a radiação solar, levando ao prolongamento da exposição, muitas vezes sem reaplicação do produto.

De que forma podemos garantir proteção adequada contra raios UVA e UVB?
A raios UVB atingem a camada mais superficial da pele, a epiderme, sendo mais intensa nos meses de verão, próximo do meio-dia e do equador e maioritariamente retida pelo vidro. Já os raios UVA, conseguem penetrar a pele até à derme, tem incidência mais uniforme durante todo o dia e em todas as estações do ano, incluindo dias nublados e com baixa luminosidade, e atravessam as nuvens e o vidro. Os primeiros são responsáveis pelas queimaduras solares, cancro da pele, bronzeado e cataratas, ao passo que os últimos estão envolvidos no processo de fotoenvelhecimento, bronzeado imediato e tardio, intolerâncias/alergias solares, cancros cutâneos e manchas pigmentadas da pele, como o melasma.

Para garantir a adequada proteção contra estes dois tipos de raios do espetro ultravioleta devemos:

  • Efetuar uma exposição solar lenta e progressiva.
  • Evitar a exposição direta ao sol nas horas de maior intensidade da radiação solar (sobretudo entre as 12-16h, idealmente entre as 11-17h), procurando zonas de sombra neste horário.
  • Usar vestuário adequado, de preferência camisola de manga comprida, de tecido opaco e escuro ou com fator de proteção incorporado, chapéu de abas largas, boné e óculos de sol com proteção UV.
  • Ter cuidados acrescidos junto à água, areia e neve, pois estas superfícies refletem os raios solares, aumentando a exposição real à radiação solar; isto significa que, mesmo debaixo de guarda-sol recebemos os raios UV refletidos na areia (em maior intensidade se esta estiver molhada), sendo fundamental a aplicação de protetor solar mesmo estando à sombra.
  • Aplicar protetor solar de amplo espetro, que proteja contra a radiação UVA e UVB, resistente à água e em quantidade suficiente, em todas as áreas expostas. Não esquecer de proteger os lábios, nariz, orelhas e dorso das mãos e dos pés. Ter em conta que o fator de proteção solar (FPS) refere-se ao grau de proteção contra os raios UVB e deve ser igual ou superior a 30. Relativamente à proteção UVA, que segundo as recomendações deve corresponder a pelo menos um terço do valor do FPS, poderá figurar no rótulo do protetor solar sob a sigla UVA centro de um círculo, no formato numérico, de cruzes (ex.: PA+++) ou de estrelas. A aplicação do protetor solar deve ser feita 15 a 30 minutos antes da exposição solar e repetida de 2 em 2 horas, ao longo do dia, ou antes se ocorrer imersão em água, transpiração excessiva ou se se secar com a toalha.
  • Evitar expor ao sol bebés com menos de 6 meses; crianças com menos de 3 anos devem evitar a exposição direta à radiação solar.
  • Lembrar que pessoas de pele clara, olho claro, com sardas, que queimam facilmente e têm dificuldade em ficar morenos, necessitam de cuidados redobrados.

 

Qual é a quantidade recomendada de protetor solar a aplicar no rosto e corpo?
Para um protetor solar exercer a função a que se propõe (o objetivo principal é a evicção da queimadura solar) este deve ser aplicado de forma generosa (2 mg/cm2) e de forma uniforme em toda a superfície cutânea exposta à radiação solar. Infelizmente, estudos demonstram que, na prática, a maioria das pessoas aplica apenas 25 a 50% da quantidade recomendada de protetor solar.

Um adulto de porte médio necessita de cerca de 35 a 45 gramas de protetor solar, o equivalente a 1 copo de shot, 7 a 9 colheres de chá, ou um pouco mais de 2 colheres de sopa, para cobrir totalmente o corpo. Isto corresponde a uma colher de chá de protetor solar para a face e pescoço, uma para cada um dos membros superiores, duas para o tronco e uma a duas para cada um dos membros inferiores. Na face e pescoço (excluindo o couro cabeludo) devemos aplicar cerca de 2 dedos de protetor solar (ou 3 no caso de protetores mais fluídos), o que corresponde a meia colher de chá. Para a face apenas podemos utilizar ¼ de colher de chá.

Para a reaplicação ao longo do dia, podemos apostar em formatos em bruma ou bastão?
Os protetores solares com apresentação em creme, gel ou leite permitem uma melhor perceção da quantidade aplicada do que formatos em bruma, spray “invisível” ou óleo.

O desafio do uso das texturas em spray ou bruma, mesmo com as vantagens da sua fácil aplicação e cosmeticidade, prende-se com a dificuldade em se saber se a quantidade foi suficiente para cobrir todas as áreas do corpo expostas ao sol, resultando em cobertura inadequada. Além disso, em dias ventosos parte do produto poderá dispersar-se e ficar inutilizado, além de poder ser inalado. Com estas apresentações, o utilizador deve certificar-se de que aplicou uma quantidade adequada de produto e o esfregou de forma a garantir uma cobertura uniforme.

No entanto, as brumas e os formatos compactos podem ser úteis para renovar a fotoproteção e criar hábitos de reaplicação. Já os bastões/sticks, são de grande utilidade para zonas específicas como os lábios ou o contorno dos olhos, ou mesmo para todo o rosto (apresentações “invisíveis”), além de permitirem tapar cicatrizes recentes.

Na eventualidade de apanharmos um escaldão, de que forma o devemos tratar?

Se apanharmos um escaldão há que iniciar o tratamento o mais precocemente possível, atentando nas seguintes recomendações:

  1. O passo inicial é a interrupção da exposição à radiação ultravioleta (do sol ou do solário, se for o caso) mal se sintam os típicos sintomas de um escaldão.
  2. Recomendam-se banhos frios ou aplicação de compressas frias para reduzir o calor e controlar a dor e o edema.
  3. Após o banho, o doente deve secar-se suavemente e aplicar de imediato um hidratante que ajudará a reter a água na pele e permitirá ajudar a aliviar o desconforto cutâneo. Devem ser evitados produtos com perfume, que podem provocar irritações. A aplicação de creme hidratante deve ser repetida e mantida até à regeneração cutânea. Emolientes ou loções contendo anestésicos locais (p. ex., benzocaína) ou difenidramina devem ser evitados em virtude do risco de dermatite de contato alérgica.
  4. Pode ser útil a aplicação de creme com cortisona de baixa-média potência para ajudar a aliviar o desconforto e reduzir a inflamação. Os anti-inflamatórios não esteróides por via oral podem ajudar a reduzir o edema, a vermelhidão e o mal-estar.
  5. A ingestão de líquidos deve ser reforçada, de forma a evitar a desidratação. Alguns estudos referem benefícios com a ingestão de alimentos ricos em betacaroteno (pró-vitamina A), como hortícolas e frutas com cores vivas (manga, papaia, romã, entre outras), devido às suas propriedades antioxidantes.
  6. No caso de se formarem bolhas, sinal de queimadura de segundo grau, estas não devem ser rebentadas, pois elas funcionam como uma proteção contra possíveis infeções. Se a queimadura solar for extensa ou se apresentar outros sintomas, como tonturas, náuseas, dores de cabeça, arrepios ou febre, deve procurar imediatamente um médico.


As manifestações agudas da queimadura solar debelam-se habitualmente em poucos dias, no entanto, as “marcas” ficam gravadas a nível molecular e de forma visualmente impercetível. As consequências tardias podem tardar anos ou décadas a manifestar-se…

Quão importante é o cuidado pós-solar?
A par do uso de um protetor solar adequado ao tipo de pele, para prevenir os efeitos negativos do sol, é de extrema importância repor os níveis de hidratação e reparar a pele agredida pela exposição solar, sal, cloro, areia e vento. Nesse sentido, recomenda-se a utilização de um hidratante adequado ao tipo de pele, aplicado pelo menos uma vez por dia e em quantidade generosa. Outra opção, é a aplicação, após a exposição solar, de um pós-solar (after sun ou aprés-soleil). Estes produtos são ricos em compostos hidratantes, calmantes e refrescantes, que hidratam, promovem a reparação da camada superficial da pele, apaziguam as vermelhidões e irritações e diminuem a secura cutânea, além de poderem prolongar e conferir um bronzeado mais bonito e luminoso.

Mitos e fake-news em relação à proteção solar (ou à falta dela)?

  • Usar Coca Cola, cerveja, óleo de bebé, sumo de cenoura ou café permitem um bronzeado rápido e duradouro.
  • Estar bronzeado é saudável.
  • Um bronzeado de base é o ideal para nos proteger do sol.
  • É útil fazer solário antes de ir para a praia para preparar a pele para o sol.
  • Não se pode ficar queimado em dias nublados nem quando se está na água.
  • A radiação UV durante o inverno não é perigosa.
  • Se não se sentem os raios quentes do sol, não se fica queimado.
  • Os protetores solares protegem-nos para que possamos estar ao sol durante muito tempo.
  • Protetores solares caseiros são naturais e mais seguros.
  • O óleo de coco é um excelente protetor solar natural.
  • Os protetores solares provocam cancro.
  • Devemos apanhar sol sem protetor solar ao meio dia para produzir vitamina D.
  • Os protetores solares são os principais culpados pelo défice de vitamina D.
  • Os autobronzeadores também nos protegem dos efeitos negativos do sol.
  • Bonés e óculos de sol protegem-nos da radiação solar, não sendo preciso usar protetor.
  • Todos os tipos de óculos escuros protegem dos raios UV.


Escusado será dizer que as afirmações anteriores não são para levar a sério, sendo falaciosas e perigosas!

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