Psoríase: a doença dos 3 nãos…

Dr. Paulo Morais - Nº da Ordem dos Médicos: 43737
Mão a coçar cotovelo com psoríase

O que é a psoríase?
A psoríase é uma doença crónica de carácter inflamatório, imuno-mediada, potencialmente grave e incapacitante, mas não infeciosa. Como é característico de muitas doenças crónicas, cursa com fases de agravamento (surtos) e períodos de melhoria ou remissão, os quais podem ser espontâneos ou resultantes de intervenções terapêuticas. É conhecida como a “doença dos três nãos”: não mata, não tem cura e não contagia.

A psoríase afeta ambos os sexos de igual forma e, embora se possa manifestar em qualquer idade, a maioria dos casos ocorre entre os 15 e os 30 anos, sendo também comum entre os 50 e os 60 anos de idade. Afeta mais de 250 mil portugueses e cerca 125 milhões de pessoas em todo o mundo.

Está demonstrado que a psoríase pode associar-se a marcada diminuição da qualidade de vida, com impacto a nível físico, psicoemocional, social e financeiro. Na verdade, estudos revelaram que o seu impacto na qualidade de vida é superior ao de outras doenças habitualmente consideradas mais graves, como o cancro, a diabetes ou a doença cardiovascular.


Quais são os sintomas da doença?
As manifestações da psoríase podem ser ligeiras (80% dos casos), moderadas ou graves, dependendo da extensão de pele afetada. As formas ligeiras correspondem a um envolvimento inferior a 3% e as graves são aquelas em que mais de 10% da pele se encontra comprometida.

A variante mais comum de psoríase, a psoríase em placas, manifesta-se por placas vermelhas e descamativas envolvendo preferencialmente os cotovelos, joelhos, região lombo-sagrada e couro cabeludo, associando-se, frequentemente, a comichão e escoriações resultantes do ato de coçar.

Existem, no entanto, outras formas de psoríase: gutata (pequenas manchas vermelhas bem individualizadas), inversa (ocorre sobretudo nas pregas da pele), pustulosa (formação de bolhas com pus rodeadas por pele avermelhada), eritrodérmica (inflamação atingindo mais de 90% da superfície corporal e acompanhando-se de prurido intenso, dor e aceleração do ritmo cardíaco) e artropática (inflamação das articulações). A psoríase artropática (também conhecida por artrite psoriática ou artropatia psoriática) é um tipo de artrite inflamatória crónica que ocorre em cerca de um quinto dos doentes com psoríase e em média uma década depois dos primeiros sinais cutâneos.

É apenas uma doença de pele?
À luz das evidências atuais, a psoríase é encarada como uma patologia sistémica (e não apenas cutânea), associada a comorbilidades cardiometabólicas (diabetes, obesidade, hipertensão arterial, dislipidemia, esteatose hepática não alcoólica e doença cardiovascular), articulares (artrite psoriática) e psicológicas (depressão e ansiedade). Associa-se, ainda, a isolamento e discriminação social, maior mortalidade, diminuição da produtividade laboral e aumento da utilização dos sistemas de saúde, com consequente impacto económico e social.


Porque surge a doença?
Embora a causa da psoríase seja ainda mal compreendida, parece existir uma origem multifatorial envolvendo a interação de fatores genéticos, imunológicos e ambientais. Estão descritos vários genes que conferem risco ou suscetibilidade para a doença e existe história familiar em cerca de um terço dos casos. Em doentes geneticamente predispostos, a exposição a certos estímulos externos ou fatores ambientais (amigdalites estreptocócicas ou outras infeções, certos medicamentos como beta-bloqueadores, anti-maláricos, lítio e alguns anti-inflamatórios, obesidade, acontecimentos estressantes, traumatismos na pele, queimaduras solares, tempo frio e seco, entre outros) promovem o aparecimento da doença.

O que significa ser uma doença inflamatória?
A psoríase é considerada uma doença inflamatória porque está associada a uma resposta imunológica exagerada e desregulada, que causa inflamação crónica. Em pessoas com psoríase, o sistema imunológico, que normalmente protege o corpo contra infeções e outras ameaças, leva a que células como os linfócitos T, libertem substâncias pró-inflamatórias (como citoquinas, especialmente o TNF-alfa e interleucinas 17 e 23), que desencadeiam inflamação cutânea e noutros tecidos, incluindo as articulações, causando os sintomas da doença.

Na pele ocorre uma produção acelerada de novas células cutâneas, resultando no acúmulo de células mortas na superfície da pele, formando as placas espessas, avermelhadas e descamativas típicas da doença.


Como se trata a psoríase?
Embora não exista uma cura, no sentido estrito, para a psoríase, com os tratamentos atualmente disponíveis é possível a resolução total ou quase total das lesões psoriáticas, bem como o controlo dos sintomas cutâneos e articulares, permitindo, assim, a melhoria da qualidade de vida.

A chave para o sucesso terapêutico passa pela individualização do tratamento, o qual deve ter em conta a idade, o sexo, as comorbilidades associadas, a forma da doença, a resposta a tratamentos prévios, a capacidade de adesão, a opinião do doente e os recursos disponíveis.

Existem opções terapêuticas tópicas (na forma de cremes, pomadas, soluções e champôs), que geralmente são suficientes para o controlo das formas ligeiras de psoríase, bem como medicamentos orais, tratamentos injetáveis (agentes biotecnológicos ou “biológicos”) e a fototerapia (realizada em cabines recorrendo à radiação ultravioleta A ou B), indicados para formas mais graves da doença ou nas formas ligeiras refratárias aos tratamentos locais.

Para casos graves e selecionados, temos hoje em dia acesso a medicamentos biotecnológicos (“vacinas”/biológicos) que, embora sujeitos a protocolos de prescrição específicos, garantem grande probabilidade de controlo da doença. São opções extremamente eficazes e seguras, desprovidas de toxicidade cumulativa e específica de órgão, que bloqueiam de forma seletiva as células e mediadores inflamatórios envolvidos na patogénese da psoríase. Constituem, à data, a maior avanço no tratamento da psoríase. Em Portugal dispomos dos seguintes biológicos aprovados para a psoríase em placas moderada a grave e para a artrite psoriática: adalimumab, etanercept, infliximab, golimumab, certolizumab pegol, secucinumab, ixecizumab, brodalumab, risancizumab, guselcumab e tildracizumab.

Como é feito o diagnóstico de psoríase?
O diagnóstico da psoríase é essencialmente clínico, isto é, baseia-se na história clínica e no exame objetivo realizados pelo médico. A presença de lesões com as caraterísticas e localizações típicas, o envolvimento ungueal e articular, o agravamento com os gatilhos habituais e a presença de história familiar da doença são pistas para o diagnóstico. Em casos raros de dúvida no diagnóstico, por exemplo quando as lesões se localizam em áreas pouco comuns ou no caso de apresentações menos frequentes como a psoríase pustulosa ou eritrodérmica, pode ser necessária uma biópsia cutânea.


A alimentação pode ajudar no tratamento ou melhoria da psoríase?
Atendendo ao caráter sistémico da psoríase e às comorbilidades cardiometabólicas que podem estar associadas preconiza-se a promoção de um estilo de vida saudável que inclua regime alimentar saudável, exercício físico regular e evicção tabágica e de bebidas alcoólicas.

Apesar de parecer não haver relação entre a dieta e a psoríase e não existirem medidas dietéticas que curem a doença psoriática, várias dietas, alimentos e ingredientes mostraram-se promissores na capacidade de reduzir ou prevenir a inflamação no corpo. Assim, recomenda-se a uma dieta pobre em gorduras, doces e alimentos processados e a redução da ingestão de carnes vermelhas, laticínios e solanáceas (ex.: batata branca, tomate, beringela e pimento). Por outro lado, recomenda-se o consumo de frutas e vegetais, carnes magras ou outras proteínas como feijão e legumes.

Em conclusão…

A psoríase continua a ser uma doença que:

  • Não mata, mas destrói emocionalmente e impacta negativamente a qualidade de vida e as relações interpessoais,
  • Não contagia, mas o preconceito e o estigma persistem, e esses sim são contagiosos,
  • Não tem cura mas, apesar disso, e de não se perspetivarem tratamentos curativos da doença a curto prazo, é possível alcançar excelentes resultados clínicos e restituir ao doente a máxima qualidade de vida com as armas terapêuticas disponíveis.


A pesquisa e o desenvolvimento de novos fármacos têm revolucionado a abordagem da psoríase, esperando-se a manutenção desta atividade investigacional, de forma a colmatar as lacunas ainda por preencher no tratamento da psoríase.

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