Nos anos 20 do século passado, a estilista Coco Chanel sofreu uma queimadura solar após ter adormecido ao sol no seu iate, enquanto navegava na Riviera Francesa. Quando regressou a Paris, apresentava uma pele bronzeada que agradou aos seus fãs, de tal forma que muitos começaram a procurar obter um tom de pele mais escuro. A pele bronzeada tornou-se uma tendência, em parte devido ao status de Coco e ao desejo pelo seu estilo de vida por outros membros da sociedade.
O ideal de pele morena foi reforçado por figuras influentes como Josephine Baker, uma célebre cantora e dançarina norte-americana, naturalizada francesa, que possuía uma pele com “tom de caramelo”, e pelos avanços na indústria de bronzeamento, como a produção de óleos bronzeadores. O bronzeado era visto, nesta altura, como sinal de elegância, saúde, luxo e riqueza.
Depois da 2.ª Guerra Mundial, e sobretudo a partir dos anos 50, os trabalhadores passaram a usufruir de férias. Muito para além do descanso, elas representaram uma enorme mudança cultural. Criaram-se novos hábitos, surgiu o turismo de massa, as férias em destinos ensolarados e resorts à beira-mar, e as pessoas passaram a buscar corpos mais bronzeados e a aproveitar as férias para obter um tom de pele dourado (sinal de que se esteve de férias)…
Mas será o bronzeado indicativo de pele saudável, beleza, estatuto e sofisticação? A resposta é não! Ao contrário do que se achava nas décadas de 60/70, pele bronzeada não é sinónimo de saúde e beleza. Este conceito encontra-se ultrapassado, já que o sol em excesso é responsável por múltiplos efeitos negativos, incluindo:
- Queimaduras solares (escaldões),
- Insolação e desidratação,
- Imunossupressão (redução das defesas do sistema imunológico),
- Queimadura solar da córnea (cegueira da neve),
- Cataratas e outros problemas oculares,
- Cancro da pele (melanoma e não melenoma),
- Envelhelhecimento precoce da pele (perda de elasticidade, aparecimento de rugas e manchas potencialmente inestéticas), retirando-lhe a beleza e a frescura.
O bronzeado é, na verdade, uma defesa natural contra a radiação ultravioleta. Significa que ocorreu uma agressão sobre a pele e consequente dano celular. Sol em excesso, obriga os melanócitos a produzir mais melanina para proteger a pele, além de levar a mutações do DNA, que podem causar cancro da pele, e estimular a produção de enzimas destruidoras do colagénio que aceleram o processo de envelhecimento.
Em suma, não existe o “bronzeado seguro”, pele queimada é pele danificada! Mas “trabalhar para o bronze” pode ser viciante. Há, de facto, doentes que sofrem de tanorexia, uma patologia caraterizada pela dependência obsessiva e compulsiva em estar bronzeado. E existe base científica para tal: a luz ultravioleta do sol e dos solários estimula a produção de endorfinas resultando numa sensação natural de bem-estar, relaxamento, bom humor e alegria. As endorfinas possuem também efeito analgésico e na melhoria do sono.
Acrescidamente, não se podem negar os benefícios do sol, nomeadamente:
- Produção de vitamina D,
- Melhoria do humor,
- Redução do risco de transtorno afetivo sazonal,
- Regulação do ritmo circadiano,
- Melhoria de algumas doenças inflamatórias cutâneas, como a psoríase ou o eczema atópico.
É tudo uma questão de peso e medida. Aproveite o sol com juízo e com os cuidados devidos:
- Na praia, no campo, na neve ou nas suas atividades ao ar livre utilize protetor solar com FPS 30 ou superior, aplique-os 15 minutos antes da exposição solar e reaplique-o a cada 2 horas ou sempre que for à água, transpirar ou se secar com a toalha,
- Use óculos de sol, boné ou chapéu de abas largas e roupas protetoras,
- Ao caminhar, fazer desporto ou em atividades lúdicas, aproveite as sombras das árvores e dos edifícios,
- Nos dias de vento e nevoeiro o sol é matreiro, queima sem nos apercebermos…
- Exponha-se ao sol de forma lenta e progressiva,
- Evite a exposição solar em horas de “risco” (entre as 12 e 16 horas e, idealmente, entre as 11 e 17 horas).
E lembre-se deste dogma dermatológico: o cancro da pele planta-se na infância, cultiva-se na puberdade e colhe-se na vida adulta. A pele tem memória!